«Rostos que vi, mãos que apertei»: introdução

«Rostos que vi, mãos que apertei»: introdução

 

«Não sei se suportareis aqui um fragmento de memórias de quem entrou na idade de recordar, e sente, como aliás todo o ser normal, a necessidade de comunicar.

Para Eça de Queirós era o recordar um «amargo prazer». Mas será, para o cristão, amargo esse prazer, se o amor o unge e embeleza?

Útil será, quando é história genuína, mesmo da chamada “pequena história”.

Falemos, a propósito, do que é História. Convencional é aquela que se repete, mais ou menos inalterável, sem se cuidar muito da sua autenticidade; mas História viva é a que se documenta e se sujeita a um critério permanente de revisão e de correcção ou aumento. Assim é que a primeira oficialização da “Igreja Católica Apostólica Ortodoxa”, operada na Arménia cerca de 301, pela conversão do seu rei Tirídates, inicia, quando estudada, a correcção do retrato político de Constantino Magno, como tal retrato se foi transmitindo, de narrativa em narrativa, ao sabor de duas correntes antagónicas, ambas exageradas. Assim, também, o conhecimento documental da soberania efectiva de Ramiro como rei de Portugal, assente em Viseu, no século X, acrescenta ao conhecimento da nossa história dinástica, só iniciada dois séculos depois, um esquecido capítulo da nossa história cívica.

Isto se dá, e os dois exemplos bastam para o demonstrar, na “História Grande”, como se pode dar na “Pequena História”, afinal subsidiária de aquela, para em muitos casos a tornar compreensível.

Pequenos factos? Vede o que nos diz [Sant’Iago (cap, 3:4): “…também as naus que, sendo tão grandes, levadas de impetuosos ventos, se viram com um bem pequeno leme».

Eduardo MOREIRA
«Rostos que vi, mãos que apertei»
Portugal Evangélico, n.º 519-521, Janeiro-Março de 1964, pp. 9-10.