in FONTES

GLORIOSA ORIGEM DO NOME PROTESTANTE

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«Em Abril dêste ano, a cidade de Spira, na Baviera, vibrou festivamente, comemorando o quarto centenário da célebre Dieta de Spira.

Reüniram-se ali representantes de todos os povos evangélicos e 80 mil pessoas, idas de vários países. A celebração encerrou-se com discursos comemorativos, um imponente cortejo histórico, e um culto ao ar livre, imponentissimo pela massa popular formidável que lhe assistiu.

Não podia o Protestantismo deixar de celebrar, com entusiasmo, aquela Dieta, na qual teve origem o formidável e invencivel protesto em defesa da liberdade de consciência, e do qual se originou o nome Protestante, pelo qual são, desde então, conhecidos os cristãos reformados ou os Evangélicos.

Recordemos um pouco de história, e ver-se-á como Deus protege Seus fiéis e quanto é honroso o apelido Protestante, a não ser para os que ignoram a história pujante do Protestantismo ou para os que o combatem de má fé, ou ainda para os que procuram ser, talvez, agradáveis ao mundo idólatra, procurando fugir ao nome que mais pode honrar o cristão evangélico.

Valemo-nos de um bem lançado artigo, que sôbre o assunto, publica a óptima revista italiana “Il Testimónio”. É seu auior [sic] o rev. pastor Aristarco Fasulo (1)Aristarco Fasulo (1885-1935) Natural de Carpi, Itália, estudou na Scuola Teologica Battista di Roma, pastoreou várias igrejas como as de Pordenone e Roma. Foi colaborador de vários periódicos evangélicos italianos e director por mais de uma décado do jornal baptista Il Testimonio (Ver «Aristarco Fasulo», in Dizionario biografico dei protestanti in Italia)..

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LEGENDA ORIGINAL: «Estas gravuras foram-nos amavelmente cedida pela Livraria Evangélica e fazem parte do livro editado por esta casa “Martinho Lutero”.»(2)Retrato de Martinho Lutero datado do século XIX, incluído no artigo.

 

Diz êle: “a dieta fôra convocada pelo imperador Carlos V, de acôrdo com o Papa Clemente VII, com o fim de anular todos os direitos e a liberdade concedidos aos Reformados, tres anos antes, numa Dieta, que teve logar também em Spira. (1526).

Misteriosos e grande, porém, são os caminhos de Deus! (Is. LV: 8-13). A decisão de se suprimirem as liberdades religiosas nascidas com a Reforma, na Alemanha, chegou muito tarde, quando já não era coisa fácil realizá-la. E êsse atrazo foi precisamente devido ao papa Clemente VII, que, anos antes, impedira que Carlos V se dedicasse à extirpação do movimento reformista – em tempo quando ainda estava êle em comêço, não tendo tido, portanto, tempo para consolidar-se.

Recordemos algumas datas: em 1517 publicou Lutero as suas famosas 95 téses, que acenderam o grande fogo da Reforma. Em 1521 teve êle de apresentar-se perante a Dieta de Worms, presidida pelo imperador e composta pelos mais altos dignatários do Império e da Igreja. Dessa dieta êle saíu condenado, mas foi milagrosamente salvo e esteve guardado secretamente, num castelo do Príncipe Eleitor da Saxónia. Em 1525, Carlos V vence, em Pavía, e definitivamente, seu êmulo, Francisco I, rei da França.

Tendo ficado único senhor da Itália e sem competidor na Europa, tinha Carlos V as mãos livres para sufocar a Reforma, ainda em organização. Por isso, resolveu passar à Germânia, para, como êle dizia, “acabar com a seita dos Luteranos”.

Se probabilidade havia de se realizar o que desejava o imperador, aquela ocasião era o momento preciso, porque, como já vimos, Carlos tinha as mãos livres, a Reforma estava, pode dizer-se, nascendo, não estando, por isso, em condições de resistir à vontade do protestantismo soberano.

Pode imaginar-se o desânimo dos Reformados que se viam frente a frente com um obstáculo que lhes devia parecer tão intransponível, como às santas mulheres do Evangelho se afigurava impossível abrir, com suas debeis mãos, a sepultura de Jesus, pelo que interrogavam: “Quem nos removerá a pedra do sepulcro?”.

Mas, assim como às santas servas de Deus veio o socorro inesperado, também aos Reformados veio o auxílio imprevisto – e de quem êles não podiam, nem por sonho esperar: do papa Clemente VII!

De facto, o pontifíce, preocupado e amedrontado pelo enorme sucesso do imperador Carlos V, (que, vencida a França, ficaria sendo o único senhor da Europa e da Itália) esqueceu por algum tempo a Reforma, levado pela preocupação de crear dificuldades e embaraços ao imperador, para diminuir-lhe o poder.

Para tanto inspirou e constituiu êle a chamada “Liga Santa”, de Cognac (1526), da qual fizeram parte o Estado Pontifício, a França, a Inglaterra, Veneza, e outros Estados italianos, que se alinharam contra o imperador. De maneira que Carlos, que se considerava desembaraçado de inimigos, vê surgirem outros.

Furioso com a traição do papa, enviou seu exército à Itália, sob as ordens do Condestável Bourbon e, em vez de suprimir a Reforma, como era seu plano assentado, deu liberdade religiosa aos evangélicos. Bateu fàcilmente o exército da Liga e enviou tropas a Roma, para castigá-la.

Essa cidade foi conquistada, e seguiu-se um tremendo saque, que durou muitos dias e tudo devastou (1527). Os saqueadores constituiam as tropas do catolicissimo imperador, do mais feroz inimigo dos Cristãos Reformados. Eram tropas espanholas, italianas e tedescas…

O que resultou de tudo isso foi o seguinte: durante alguns anos viu-se o imperador forçado a estar ocupado na Itália, por culpa do papa Clemente VII, de sorte que, durante êsse tempo, a Reforma esteve desafogada, e pôde estender-se mais e se organizar, consolidando-se mais fortemente. Entrou e avançou em novas províncias e Estados, tendo-se firmado solidamente na Germania. E dest’arte, ficava em condições de apresentar um forte partido, com que se defender.

Dizia Eurípides: Quos vult Jupter perdere, dementat prius (3) A citação contém um erro gráfico em «Jupiter». A frase Quos jupiter vult perdere dementat prius é a tradução latina de uma locução grega, atribuída a Eurípides, que significa Os que deseja Júpiter perder, enlouquece-os primeiro.. Essa sentença bem poderia ser aplicada ao caso acima.

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Em 1528, Clemente VII fez novamente as pazes com o imperador. Mas, motivos diversos entreteem-no ainda na Itália e Florença havia restaurado as liberdades republicanas, tendo expulso seus senhores, da família Medici, à qual pertencia o próprio papa. Êste obtem o auxílio do imperador para dominar Florença, contra cujo heroísmo se teriam, provavelmente, desfeito as proprias armas imperiais, se a traição não tivesse frustrado os tesouros de abnegação, de tenacidade, de inteligência, de amor pátrio, e de coragem civil de que aquela cidade insigne era ornada.

E assim, outro periodo transcorreu, de sorte que, só em 1529 é que Carlos V convocou de novo a Dieta de Spira, com o fim de impedir e rechaçar a Reforma.

Mas, agora já era muito tarde e, se bem que êle (apoz a queda de Florença e a paz completa com Clemente VII, que o coroõu rei da Itália, e imperador em 1530) se lançasse à obra com todo o pêso da sua vontade, do seu indiscutível génio e do seu ilimitado poder – não conseguiu senão produzir dores e devastações entre os Reformados, sem nada alcançar de positivo porque, quando, afinal, cria estar seguro do seu propósito e se deixava estar pacifícamente em Insbruk, a vigiar o Concílio de Trento, teve de fugir e ceder todos os frutos dos seus trabalhos, porque o seu generalissimo, o principe Maurício da Saxódia [sic], de acôrdo como todos os chefes, rebelou-se e impôs-lhe a restituição dos Estados, bens e direitos aos Reformados, de maneira que as cousas fossem repostas nos seus antigos logares.

Mas… voltemos à Dieta de Spira. O partido católico, que estava ali em maioria, e tinha a certesa de contar com o imperador, mostrou-se intransigente desde o principio. Pensavam os partidários do papa que era chegada a hora de suprimir o movimento reformista evangélico. Por isso êsse partido foi para a Dieta com espírito afoito e arrogante.

Os membros reformados da Dieta (cinco príncipes soberanos e quatorze representantes de cidades imperiais) foram, desde o princípio, objecto de escárneo e de vozes ameaçadoras que se ouviam de todos os lados.

Mas, alheios a toda a atitude provocadora, êles não se curvaram, não cederam. Sendo a época das festas pascais, no Domingo de Ramos, (a despeito da proibição dos católicos), os evangélicos realizaram duas reúniões, uma de manhã e outra à noite, na habitação do Eleitor príncipe da Saxónia, às quais assistiram oito mil crentes.

Entretanto, a Dieta de Spira iniciou os trabalhos, revelando, logo de princípio, os sentimentos de que estava animada: a maioria pretendia suprimir a liberdade de culto e pôr novamente em vigor os decretos de Worms (1521), que haviam banido do Império a Fé Evangélica, sem ter em conta que (na Dieta precedente, em 1526, e por ódio à “Liga Santa”) todas as liberdades haviam sido concedidas aos Reformados, de sorte que estes tinham podido crescer e fortificar-se.

Entretanto a Dieta discutiu e aprovou algumas decisões que julgava ainda exequíveis, especialmente relativas a alterações em matéria religiosa introduzidas pelos príncipes e autoridades evangélicos, nos seus Estados e Cidades.

Decretou a Dieta que tôdas as modificações feitas em favor do culto reformado e em detrimento do católico eram ilegais e que, por isso, deviam voltar ao seu antigo estado. Apesar da oposição dos Reformados, a Dieta decretou que nos Estados e Cidades de maioria católica continuassem em vigor os decretos de Worms (1521), os quais aboliam completamente o culto evangélico.

Ao contrário, nos Estados que haviam passado à Reforma deixava-se limitada liberdade de consciência – sómente àqueles que já haviam abandonado o catolicismo. Mas, daquele momento em diante, ninguém mais podia passar para a Fé Evangélica; ficava proïbida a propaganda evangélica; as funções católicas seriam livres nos Estados e Cidades evangélicos e as rendas eclesiásticas ficariam intactas, até à reünião do Concílio.

Em suma: tolerava-se apenas que vivessem como pudessem os que já se haviam convertido à Igreja Reformada; mas, tolhia-se-lhes toda a liberdade de culto público, de propaganda, de expansão. Era um meio de conduzir a Reforma à morte, em poucos anos; porque uma Fé que não se expande, que não se propaga, està condenada a morrer.

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Os cinco príncipes evangélicos, à frente dos quais estavam o Eleitor João, da Saxónia e o Landgrave Filipe de Hesse, e os quatorze representantes das Cidades Reformadas, formularam, então um protesto, que consignaram aos comissários do Imperador, depois de o terem lido perante a Dieta.

Nesse protesto (depois de terem apelado para os seus direitos incontestáveis de cidadãos, direitos que tinham sido solene e unânimemente reconhecidos pela Dieta anterior, 1526) êles declaram peremptòriamente não poderem aceitar nem se submeterem às decisões desta nova Dieta, por motivos, acima de tudo, de consciência: “Porque, diziam, trata-se da causa da glória de Deus, e da salvação das nossas almas, que terão de comparecer perante o Juízo de Deus, cada uma por si mesma. Se nós negarmos o nosso Senhor, Êle também nos negará a nós”.

Ainda mais, declaravam no protesto que jamais poderiam os Reformados aceitar artigos que proïbiam a propaganda religiosa e, mais ainda, os artigos que impediam que os cidadãos convertidos passassem para a Igreja Evangélica: “De que delito, diziam, nos faríamos cúmplices se aceitassemos tais decisões! Nós temos que colher as almas que Deus despertar à fé! Declaramos, pois, que não podemos aceitar o jugo que nos querem impor e que consideramos nulas as decisões tomadas nesta Dieta”.

Tão firme atitude muito impressionou tanto a Dieta como o público.

E foi dêsse protesto apresentado com tão inquebrantável dignidade, por homens que sabiam de antemão os graves riscos a que se expunham, (mas que se entregavam nas mãos de Deus, como já fizera Lutero, em 1521) que nasceu o nome Protestantes dado, desde então até hoje, aos Cristãos Evangélicos!

“Como se vê (diz o pastor protestante Aristarco Fasulo, ilustre pastor Baptista, na revista italiana, também Baptista, “Il Testimonio”), Protestante é um título de nobilíssima origem”, e acrescenta: [“]Se os representantes evangélicos da Dieta de Spira, pertencessem às classes dos tipos moralmente invertebrados, ter-se-iam declarado satisfeitos por poderem conservar a sua fé, desinteressando-se inteiramente dos outros”. E teriam, dizemos nós, engulido as decisões da Dieta.

“Mas aqueles homens, diz ainda o pastor Baptista, convertidos ao Evangelho de Cristo, homens, portanto de consciências iluminadas e firmes, preferiram incorrer nas iras do imperador e do partido católico. E quanto, e por quantos anos, tiveram êles de sofrer a ira imperial, a começar pelo príncipe da Saxónia e o Landgrave de Hesse! E tudo para não traírem aqueles princípios – que ainda hoje mesmo nos países católicos, são considerados “conquistas insuprimíveis dos tempos modernos, isto é: a liberdade de consciência, de culto, e de propaganda”.

 “Glória! Bênção à memória dêsses homens! Êles sofreram tudo o que era possível ao homem sofrer, quando mais tarde Carlos V se atirou contra êles, com a fôrça tôda do seu poder, chegando-se até a privá-los dos seus bens e da liberdade de viver.

“Mas, através das suas lágrimas, angústias e sacrifício, os seus princípios de liberdade foram mantidos cheios de vitalidade e, contribuindo para a formação dos Estados modernos, para o alevantamento da cultura e da civilização!”.

E o ilustre pastor Baptista fecha o seu belo artigo com estas memoráveis palavras: “Que nos chamem protestantes também! Embora nosso nome seja o de Cristãos Evangélicos – nós nos sentimos sempre honrados em assumir êste título glorioso de protestantes! È o nome que recorda provas dolorosíssimas, a alta dignidade humana, a feroz tenacidade dos cristãos de há quatro séculos, os quais, com seus sofrimentos, abriram a porta às sucessivas liberdades, de que germinaram tôdas as formas mais nobres da vida moderna!”

E nós imitando S. Paulo, podemos dizer: “Não me envergonho do nome protestante porque êsse título é um munumento à memória daquêle pugilo de crentes que, há quatro séculos, salvaram para sempre tôdas as liberdades de que hoje gozamos!”

Paschoal PITTA(4)Paschoal Pitta (1889-1960) pastor prebisteriano brasileiro, esteve em Portugal, enviado pela Sociedade Missionária Brasileira de Evangelização de Portugal da Igreja Presbiteriana do Brasil, nos períodos de 1925 a 1930 e 1932 a 1940 (Ver mais em David VALENTE, «Igreja Evangélica Presbiteriana de Portugal: Contributo para a história da sua formação», Lusitânia Sacra, 2ª série, 16 (2004), pp. 477-510).
«Gloriosa origem do nome protestante»
Portugal Novo, 1 de Novembro de 1929, Ano II n.º 42, pp. 1, 3.

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1. Aristarco Fasulo (1885-1935) Natural de Carpi, Itália, estudou na Scuola Teologica Battista di Roma, pastoreou várias igrejas como as de Pordenone e Roma. Foi colaborador de vários periódicos evangélicos italianos e director por mais de uma décado do jornal baptista Il Testimonio (Ver «Aristarco Fasulo», in Dizionario biografico dei protestanti in Italia).
2. Retrato de Martinho Lutero datado do século XIX, incluído no artigo.
3. A citação contém um erro gráfico em «Jupiter». A frase Quos jupiter vult perdere dementat prius é a tradução latina de uma locução grega, atribuída a Eurípides, que significa Os que deseja Júpiter perder, enlouquece-os primeiro.
4. Paschoal Pitta (1889-1960) pastor prebisteriano brasileiro, esteve em Portugal, enviado pela Sociedade Missionária Brasileira de Evangelização de Portugal da Igreja Presbiteriana do Brasil, nos períodos de 1925 a 1930 e 1932 a 1940 (Ver mais em David VALENTE, «Igreja Evangélica Presbiteriana de Portugal: Contributo para a história da sua formação», Lusitânia Sacra, 2ª série, 16 (2004), pp. 477-510).