Diogo Cassels, uma biografia revisitada

Diogo Cassels, uma biografia revisitada

Para a posteridade, James Cassels viria a ficar conhecido pelo nome próprio em língua portuguesa que para si próprio escolheu: Diogo – Diogo Cassels. Aliás, embora possa não ser tida esta a tradução mais óbvia, o nome Diogo rende equivalência ao emaranhado etimológico que remotamente conduz ao antropónimo hebraico Ya’akov, em paridade com alternativas várias na nossa língua como Jacó, Iago, Tiago e Jaime, entre outras.

Não se pode falar de Diogo Cassels sem mencionar quem até hoje empreendeu a mais extensa e completa biografia desta personalidade, na sua obra de caráter académico Diogo Cassels: uma vida em duas margens. Refiro-me a Fernando Peixoto a quem também presto a minha homenagem. Embora Cassels não fosse uma personalidade completamente virgem na incipiente historiografia protestante – começando desde logo pelos apontamentos autobiográficos, principalmente em A Reforma em Portugal, mas continuando por breves referências em publicações periódicas protestantes, para além do seu tratamento mais consubstanciado em trabalhos de Eduardo Moreira, Albert Aspey, Manuel Pedro Cardoso, François Guichard, António Manuel Silva, Luís Aguiar Santos, entre outros – é Peixoto que lhes dá um caráter prosopográfico incontornável, razão pela qual devo fundamentalmente a este investigador as minhas presentes notas biográficas.

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A vida e a ação de James Cassels inscrevem-se numa matriz primacial do que viria a caraterizar e a conformar o que se pode designar como a primeira geração de um protestantismo genuína e identitariamente português. A afirmação pode parecer em si mesma contraditória, dadas, precisamente, as origens estrangeiras do clã Cassels, mas a investigação histórica tem apontado para esta originalidade do protestantismo português, mesmo quando comparado com realidades culturais, sociais e naturalmente religiosas, mais próximas como seriam os casos de Espanha ou Itália, por exemplo. Não vem a propósito escalpelizar as razões pelas quais, apesar dos claros ventos luteranos que então chegaram a Portugal, o protestantismo tenha demorado mais de três séculos a implantar-se no território metropolitano sob a forma de presença social organizada. Ficará também para outro contexto refletir sobre o facto, demonstrável ainda hoje, de em Portugal não se terem implantado as expressões históricas do genuíno protestantismo quinhentista, preferindo-se, ou simplesmente assumindo-se, nesse frenesim oitocentista, dar preferencialmente espaço às correntes do revival anglo-americano. Portugal experimentou assim um “protestantismo sem Reforma” no século XVI, tendo esperado por uma “Reforma sem protestantismo” a partir do dealbar do século XIX.

Ora, James Cassels, é ao mesmo tempo produto de uma sociedade em profunda mutação e agente ativo dessa transformação. O seu percurso de vida não é apenas evidência da significativa alteração que o panorama religioso viria a sofrer em Portugal ao longo do “seu” século, mas das modificações mais abrangentes que se experimentariam no plano político, social, mesmo económico. Embora não seja o melhor retratista social da época, dada a evidente paixão com que se envolvia nas narrativas por si construídas, Júlio Dinis confere-nos no seu primeiro romance, Uma Família Inglesa (1868), bem a imagem dos dilemas que a sociedade portuense, mas também a sociedade portuguesa de modo mais abrangente (nos locais em que naturalmente predominava a presença de britânicos), experimentava a partir de uma certa superação das fronteiras que as comunidades britânicas tinham imposto a si próprias desde que as terras de Suas Majestades se tinham tornado “cismáticas”. A despeito da singularidade do percurso do nosso biografado, o padrão do britânico nascido em Portugal que ultrapassa o conforto das suas vivências familiares, profissionais, religiosas e sociais – perfeitamente assumidas no plano das sociabilidades mas também ao nível das convenções internacionais e mesmo do ordenamento constitucional português – não é exclusivo dos Cassels, mas também se vai aplicar aos Jones ou mesmo aos Moreton, igualmente no Porto, aos Roughton, principalmente em Lisboa mas também no Porto, ou aos Robinson, em Portalegre, só para enriquecer o argumento com alguns exemplos. Não quer isto dizer, todavia, que tenha havido uma massiva adesão dos protestantes britânicos a uma certa onda proselitista, que lança as bases de um processo de diferenciação religiosa em Portugal. Bem pelo contrário! Mesmo no seio das famílias antes referidas como exemplo, na sua grande maioria esses cidadãos mantiveram as suas sociabilidades e práticas religiosas inalteráveis, não cruzando a virtual fronteira das suas little Britain, tão laboriosamente construídas ao longo de séculos.

James, ou Diogo, é bem o exemplo de um certo hibridismo encontrado nestas figuras do protestantismo primevo. Apesar de a investigação de Peixoto não encontrar qualquer evidência de que se tenha naturalizado português, o seu entendimento era de que tendo nascido em Portugal não necessitava de qualquer formalidade jurídica dessa natureza para ser tido como cidadão português. Diogo navega, pois, entre um indesmentível patriotismo lusitano e uma militância protestante que, à época, era acusado de ter um caráter desnacionalizador e atentatório das tradições religiosas e culturais do Reino. O percurso pessoal e profissional evidencia bem os diferentes mundos que Diogo Cassels abarcou ao longo da sua vida. As duas margens de Peixoto não é só Porto e Gaia, mas é também as suas diversas estadas, ora em Portugal ora em Inglaterra, é o confronto entre a cultura portuguesa e a cultura britânica, entre catolicismo e protestantismo, e, mesmo dentro do protestantismo, entre o metodismo e o anglicanismo lusitano, até mesmo entre o mundo da indústria e o mundo do comércio, os quais em diferentes fases da vida experimentou. Diogo é um homem das margens e sempre entre margens.

Assim, James Cassels, autobatizado Diogo no que concerne ao contacto com os portugueses (não deixaria de usar o nome James nas suas relações com a família e comunidade de origem), inscreve-se num certo padrão, de caráter residual, ao mesmo tempo que foge do padrão, predominante nos círculos britânicos. Nascido no Porto a 3 de novembro de 1844, provinha de uma típica família britânica, cuja indústria de estamparia a que se dedicou, esteve instalada em Vila Nova de Gaia. Se dentre as famílias numerosas da época, tanto no contexto protestante como católico, era habitual que um dos filhos e/ou filhas estivesse destinado à vida religiosa, tal não parecia ser o destino de James, que fez uma parte dos seus estudos na Inglaterra e regressou a Portugal aos 14 anos (1858). O patronímico Cassels não parece ser muito frequente, sendo aparentemente derivado do escocês Cassilis. Este ramo concreto da família tem início quando John Cassels (que inicialmente desenvolve atividade comercial em Lisboa, desde a sua chegada em 1835) se consorcia com Ethelinda Cox, já no Porto, onde esta era precetora no seio de uma outra família britânica – os Wright. Tanto um como outro tinham fortes antecedentes de militância religiosa e eles próprios eram pessoas envolvidas nas respetivas comunidades eclesiásticas. Casaram em outubro de 1843, em Inglaterra, mas foi no Porto que se estabeleceram como casal. Desta união viriam a nascer 13 filhos – sete rapazes e seis raparigas – e, ao contrário do que era hábito na época, apenas uma, Mary Elizabeth, não chegou a idade adulta. James é o primeiro, seguindo-se John Wilberforce (1846), Walter Ritchie (1847), Andrew Boys (1849), a já referida Mary Elizabeth (1851) que faleceu com 2 meses de vida, Herbert Winne (1852), Ethelinda Woodrow (1854), Margareth Ritchie (1856), William Wharton (1858), Francis Kennedy (1859), Jessie Gardner (1861), Bertha Chance (1863) e Helen Elizabeth (1865). Num espaço de 22 anos, desde o casamento, a família ficava completa. A doença de John, que viria a falecer com apenas 57 anos, levaria a família de regresso a Inglaterra em 1868, embora os filhos James e Andrew tenham ficado então em Portugal. Aliás, os dois irmãos ficarão ligados para o resto da vida nos seus empreendimentos evangelísticos no Porto e em Gaia. Por outro lado, William, que parecia estar, sim, destinado ao múnus sacerdotal, tornar-se-ia missionário e o primeiro bispo anglicano na China, e John que se tornou capelão na Índia.

A 24 de abril de 1867, Diogo casa com Elizabeth Jones, Isabel para os portugueses, também ela proveniente de um contexto familiar muito semelhante ao do marido, tal como ele uma britânica já nascida em Portugal. Aliás, Joseph, o irmão de Elizabeth, e colaborador de Diogo durante algum tempo nas suas classes bíblicas, viria a ser o fundador da primeira comunidade batista no Porto, e também em todo o território nacional. Isabel, presente em todos os empreendimentos de Diogo, nomeadamente como professora, educadora, dinamizadora do trabalho social, organista, etc. viria a falecer a 29 de janeiro de 1908, deixando para trás o seu marido e as duas filhas: Ethelinda Jessie e Margareth Kennedy.

Os primeiros anos deste casamento são ricos em atividade e dramatismo. Em julho de 1868 nasce a primeira filha do casal, pouco tempo depois quase toda a família Cassels desloca-se para Inglaterra (ficando em Portugal apenas Diogo e André), Diogo é preso e condenado a deportação (pena que acaba por ser suspensa em instância judicial superior) e, com o falecimento do pai logo depois, Diogo vê-se com a responsabilidade, como filho mais velho, de assumir os negócios da família, o que implicava sustentar a mãe e dez irmãos, além da sua própria família em formação. Porém, de acordo com o próprio relato de Diogo, o seu interesse era outro, pelo que numa fase inicial se dedica ao comércio “que demandava menos fadigas e menos trabalho aturado”. E continua: “Já em meia idade fiz exame de professor na Escola Normal do Porto, registei-me depois de concurso documental como professor de Instrução Secundária e comecei a estudar Teologia”. Foi em 1899, portanto com 55 anos, que Diogo abandonou toda a sua atividade comercial para abraçar em exclusivo a ação missionária e benemérita a que se dedicava informalmente desde a juventude.

De entre estas personalidades britânicas de que temos vindo a falar, unidas por tantos traços comuns, Diogo parece destacar-se por ter percebido muito cedo que a sua boa vontade e mesmo os recursos financeiros de que dispunha – o mesmo se aplicava a outras personalidades e famílias com atividade em tudo semelhante a Cassels – não eram suficientes para promover um trabalho consistente e duradouro. Aliás, o fulgor das sociedades missionárias britânicas poderia permitir que essa ação missionária mais concertada viesse a gerar frutos. Porém, as evidências documentais disponíveis apontam para o facto de Portugal não estar incluído entre os territórios de missionação prioritária. Isso mesmo já tinha experimentado Vicente Gomez y Tojar três décadas antes. Ainda assim, Diogo Cassels faz um contacto com a dinâmica e poderosa Sociedade Metodista Wesleyana, em Londres, tão cedo quanto 1868 (tinha ele 24 anos incompletos). Aliás, esta Sociedade conhecia o trabalho de Tojar em Lisboa (embora nunca o tivesse apoiado), tinha tido contactos com Angel Herreros de Mora, por quem Cassels manifesta o maior respeito e admiração, e era ainda do conhecimento dessa agência o trabalho de origem metodista iniciado por um engenheiro britânico nas minas do Palhal. O desinteresse da Sociedade Metodista é óbvio, pelo que quando a Capela do Torne é inaugurada, a 18 de outubro de 1868, não havia ainda qualquer vislumbre de que tal cooperação fosse possível. Ainda assim, o Torne foi constituído como trabalho metodista em cerimónia presidida por um ministro metodista que por essa época passava por Portugal. Dada a prisão de Diogo, o trabalho é afrontado por diversas vicissitudes mas sabe-se que em 1872, para além do trabalho religioso regular da capela, existiam duas escolas de alfabetização femininas. Embora o sítio do Torne, e a sua capela metodista, não tivessem a visibilidade que hoje ostentam, no centro da cidade de Gaia, é de assinalar o facto de este edifício, destinado ao culto protestante de cidadãos portugueses, ter sido edificado com um enquadramento constitucional desfavorável, pois o artigo 6.º da Carta Constitucional claramente impedia tais veleidades.

Finalmente, a chegado ao Porto do ministro metodista Robert Hawkey Moreton, também ele nascido fora do país de origem, neste caso Buenos Aires, veio dar grande esperança à prossecução do trabalho missionário iniciado por Diogo Cassels em Gaia. O desembarque ocorre no início de 1871. Moreton era então um jovem da mesma idade de Cassels pelo que se criou entre eles grande cumplicidade e entusiasmo. Embora Moreton se fixe no Porto, a sua cooperação com o Torne é intensa. No processo de aquisição de terreno próprio na cidade do Porto (1874) e na inauguração do que viria a ser conhecida como a capela do Mirante (1877), o nome de Diogo Cassels, e mesmo de outros elementos da família, está ainda presente. Por sua vez, o número de escolas e de estudantes também aumentava, pelo que, embora o ensino não fosse totalmente gratuito, implicava um avultado investimento que ia aumentando em igual proporção. De acordo com os dados compulsados por Peixoto, entre Porto e Gaia, em 1878 o esforço metodista abrangia 100 membros batizados, 135 alunos das escolas dominicais, 104 alunos das escolas diárias e 400 presenças nos cultos e reuniões.

Logo em meados dos anos 1870 se começaram a notar algumas divergências no que concerne à perceção de Cassels e Moreton quanto ao progresso do trabalho metodista. Diferenças até no tipo de públicos a atingir, relativamente aos estratos sociais. Cassels manifestava maior preocupação com os desfavorecidos enquanto Moreton regozijava pelo facto de se juntarem à igreja no Mirante pessoas provenientes de “classes mais elevadas”. Havia, porém, outras razões, até mesmo de natureza teológica, que se prendiam também com o respeito pelas opções seculares dos portugueses, segundo a perspetiva de Cassels. Julgo que a obra A Reforma em Portugal é, ela própria, um eloquente documento autojustificativo das razões mais profundas deste afastamento. A rutura consumou-se com a adesão da “Congregação Evangélica de Vila Nova de Gaia” à Igreja Lusitana Católica Apostólica Evangélica, formada através do seu sínodo constitutivo em 1880.

A partir desta data e nos 43 anos seguintes de vida que ainda viria a ter, Diogo Cassels é assumidamente um episcopaliano português, o que é demonstrado pelo seu infatigável labor em trazer à estampa o periódico Egreja Lusitana – e aqui recorro a António Manuel Silva na introdução à obra que hoje apresentamos – “do qual por mais de três décadas foi diretor, editor e, na maioria dos números, seguramente redator quase exclusivo, quer com textos próprios, quer com traduções de outras fontes”.

Para maior detalhe, aconselha-se, aos mais afoitos, a leitura da volumosa obra de Fernando Peixoto já referida, ou mais modestamente, do mesmo autor, Diogo Cassels (1844-1923): A praxis ao serviço da Fé, em 2.ª edição também da editora Estratégias Criativas, publicado em 2018. Vale a pena a sua leitura atenta! Refira-se apenas a título telegráfico a notável obra na área da educação que Cassels desenvolveu ao longo de vários anos, com incidência no concelho de Gaia. Dos 120 alunos na escola do Torne em 1880 cresceu para 258 matriculados na viragem do século. Entre 1900 e 1902 foi construída e aberta ao público mais uma escola, do Prado, com capacidade para 60 estudantes. A primeira creche em Gaia também resultou dos esforços do casal Cassels. Outras evidências do seu forte empenho foram a construção de templos, precisamente associados ou complementares a edifícios de escolas, a criação do primeiro bairro de habitação económica, a fundação da Sociedade Evangélica de Socorros Mútuos (1870), a Sopa Económica (1888), mais tarde Cantina para os Pobres, para além da criação e colaboração com outras instituições de apoio humanitário e social.

Não se conheceu militância política a Diogo Cassels mas a verdade é que que também ele viveu nas duas margens no que concerne aos regimes políticos em Portugal. O mesmo sistema judicial que o prendeu e condenou em 1.ª instância, também reconheceu o erro da sua kafkiana condenação quando o processo chegou à Relação, ainda nos tempos da Monarquia. Não se lhe conhecem particulares simpatias pelo governo republicano que se instalou em 1910, ao contrário do que outros líderes protestantes claramente tinham manifestado. Seria um simpatizante monárquico pelo apelo das suas ancestrais origens? Ou ter-lhe-ia sobressaído uma certa esperança de que a República trouxesse o fim de casos judiciais por motivos de crença religiosa como aquele a que tinha estado sujeito? Não se conhece com definitiva certeza. A sua causa foi acima de tudo as pessoas, alicerçada numa forte convicção cristã, em que educação e dignidade humana, por um lado, e prática religiosa, por outra, eram as duas faces da mesma moeda. Viveu uma longa vida até fenecer a 7 de novembro de 1923, com a proveta idade de 79 anos, mas ainda assim continuava pronto a fazer o bem.

Timóteo A. J. CAVACO
Comunicação proferida no colóquio «O “Reformador” Diogo Cassels (1844-1923). Biografado e biógrafo do seu tempo»
Lisboa, CEHR-UCP, 19 de Novembro de 2019