Crisóstomo Português, Eduardo Moreira

 

«Um ensaio dessa ordem deveria ser instruído no estudo metódico de tudo quanto, por meio da prédica, se tem feito entre nós; isto é, na análise das dedicações, assim como das traições ao Mestre Sublime e ao Seu inexcedido Evangelho.

Tal estudo foi o escopo deste modesto tra­balho.

Nele procuramos ser tão objectivos quanto possível: escrupulosos na investigação, equilibra­dos na crítica, compreensivos e humanos nas nar­rativas, evitando a secura duma reportagem anódina mas desdenhando o espírito sectário e os processos de “propaganda” que têm manchado a actividade cristianizadora, por muitos séculos, desde a “pia fraude” das actas dos martírios for­jadas, e das falsas decretais, até à imitação re­cente do dirigismo publicitário da indústria, do comércio e da política em certos meios.

Não enfileiraremos, nem na Anti-Igreja dum crescido número de cristãos individualistas, nem na Anti-Reforma da quase totalidade dos cristãos ultraconservadores, afinal manejadores, uns e ou­tros, da famosa propaganda dirigida. Ao contrá­rio, procuraremos servir um espírito histórico, um sentido tradicional, uma acção de amor pátrio, no melhor significado desses conceitos.

Enquanto víamos tomar vulto este trabalho, nascido de lições dadas num Seminário Teológico, trabalho talvez excessivamente denso, na ambi­ção de se dizer muito em pouco tempo e espaço, íamos sonhando com um filme estranhamente ensinador, onde, a um lado, a casa do mentor pri­mitivo se transforma num templo, e este vai sem­pre mudando as suas linhas arquitectónicas con­tendo, cada vez mais nítido, no interior a des­coberto, primeiro o pequeno estrado que vai ser púlpito; depois o púlpito proteiforme como o templo que o contém. Aí vemos um pregador cujo aspecto muda sempre também, dirigindo-se à multidão que cresce e por fim inunda uma grande praça.

 

A multidão vai-se escoando pelas ruas afluen­tes, e outra gente vem, sempre com diversa indu­mentária, diferente gesto, diferentes costumes e vozes, variadas feições. É o século luso-romano, a era sueva e a visigoda, a berbere e a moçarábica, a medieval em sucessivos estádios… O plenocintro transforma-se em ogiva, o frade bento em franciscano; o saio e a besta dão lugar ao cal­ção e ao arcabuz; o sermão terrífico dos “autos-de-fé” cede o passo à oratória cristã liberal. E o sabor homilético sofre as mil influências do meio mudável, modificando por seu turno o paladar da multidão, enquanto o Nome bendito de Cristo soa sempre aos ouvidos ansiosos da mole imensa, onde há imensa dor, imensa paixão, imensas fes­tas, imensos crimes, imensos remorsos…

Soa sempre, portador da promessa reivindica- dora para o oprimido, do perdão gratuito para o repeso, da Graça paraclética para a alma impo­tente e angustiada.Sentimo-nos, ao realizar este pequeno trabalho, não na posição ridícula do partícipe dum grupo de “perfeitos”, aliás adverso a tantos outros gru­pos com igual jactância, pelo esquecimento de que “o orgulho espiritual é o pior orgulho”, no dizer paulino. Somos todos unidades bem modes­tas da Cristandade Total, essa multidão em mul­tissecular úomhate pela conquista da Verdade-para-cada-alma; em perpétua expansão através das regiões do Orbe, recolhendo a Água da Vida em vasos dos mais diversos contornos, desde a ânfora de Betelem até ao pucarinho português, mas procurando, em sucessivos e imperfeitos mo­vimentos de reforma, a filtragem da água decan­tada em processos humanos.

Não é nossa intenção alardear desassombro ou coragem, nem contrariar opiniões feitas, pelo pra­zer mórbido de contrariar, mas tão-sòmente pro­curar a Verdade onde ela estiver e com o seu encontro servir a querida Pátria e o nosso Mestre divino.

Encontrareis trechos de simples crítica, conden­sada de muitas páginas de leitura; outros que são a cerzidura de pequenos factos, positivamente catados de asservos onde pouco mais há que in­teresse à nossa finalidade. No género, depois da obra proficiente mas antiquada de Cenáculo, nada encontramos feito, o que nos parece estranhável. Procuramos assim realizar “bom” onde nada havia; e se não o conseguimos força é confessar que quem nos siga só poderá fazer “melhor” de­vido ao nosso esforço. A nós nos deverá o grau comparativo.

O título adoptado evoca o nome do glorioso homiliasta católico que se tornou antonomásia da velha eloquência da Igreja. Poeta do “Grande Mandato”, técnico da “Pesca Maravilhosa”, servo das multidões famintas, acerca das quais Jesus dissera: “Dai-lhes de comer”, eis um génio tutelar dos pregadores de todos os séculos e de todos os recantos da terra. Poeta, sim, porque o pregador é mais que um narrador histórico, ao procurar li­ricamente interpretar a Epopeia do Reino dos Céus.

Ao evocarmos a multidão faminta – duplamente faminta, de corpo e de alma – estávamos pen­sando que no sermão se serve o pão celeste, divino Verbo humanado, revelado no Verbo escrito, a Sa­grada Palavra que O espelha, mas igualmente inculca aos possuintes a repartição imediata e efi­caz do pão do corpo. Ainda que se diga, com os Espanhóis, que “uma coisa é pregar e outra dar trigo”, é necessário reconhecer que entre milhões de prédicas que hajam traído de algum modo a verdade cristã, seja em que confissão ou partido for, muito trigo se tem dado às almas famintas de justiça e de amor, abrindo-lhes o caminho da su­prema ventura e proporcionando o bem terreno como acessório acrescentado a quem busca o Reino de Deus e Sua justiça.

O Púlpito não perecerá. Já a meio do século passado Castilho escrevia, no programa duma publicação nova, as seguintes palavras: “Este século matou a Livraria e pôs em seu lugar o Jornalismo. Assim devia ser, porque este século é popular.” Há exagero nesta afirmação, pois se o jornalismo tornou o livro mais leve, também é certo que o tornou mais popular. E ao lado do Livro também o púlpito não ruiu mas populari­zou-se, substituindo a retórica antiga por uma nova oratória, mais breve, mais singela e mais clara.

Ocorre-nos aqui dizer ainda que muita bonda­de, muito amor puro a História não regista, por não saber ou não poder fazê-lo, ocupada com as vicissitudes que são, aparentemente, o que impele, revela e modifica os passos da Humanidade. O “púlpito das mães”, a “cátedra do lar”, por exem­plo – e maravilhoso exemplo! –, não tem história, desde a Mãe modelar, a Bendita Virgem, que vi­veu esses dias ignorados da adolescência de Jesus, depois do rápido episódio dos doze anos no Tem­plo. Contudo é esse púlpito, escondido da devassa da História, que forma inicialmente os grandes vultos de que ela depois toma conta.

Esse terno e gracioso púlpito das mães vive em perpetuidade, sempre rejuvenescido. E o outro, aquele que a História da Igreja descreveu e exalta? Ouçamos, como esboço duma resposta, não o historiador, preso do passado, mas o jorna­lista, que regista o presente na presunção de auscultar o futuro. Entre eles um, que é expoente de elegante audácia, o Sr. Artur Portela, falando da “proa rostral da fé”, o púlpito cristão, diz que “já não tem o brilho e majestade de outros tem­pos. Já não se ouve a voz de Vieira nem de Lacordaire… talvez porque tenha passado a época heróica do cristianismo – embora o seu combate incruento seja de todos os séculos. Em contrapar­tida – acrescenta – são cada vez mais numerosos os estudos sobre o Cristianismo”.

Eis um comentário valioso, justamente por ser formulado em meio da efervescente e efémera vida do jornal. Todavia, que diremos se pensar­mos que o Evangelho eterno estará agora no seu início, ao fim de dois mesquinhos milénios de exis­tência? E que depois dos substanciosos estudos de Rops ou de Kenyon, e de milhares de outros, quando o livro ceder o passo ao disco ou a outros métodos que os ultrapassem, virão de novo ora­dores sacros para o primeiro plano, tais como no­vos Remardes ou Chagas, Coquerel ou Spurgeon, se não diferentes desses, numa arte que mal sus­peitamos, sempre nascida do Sermão do Monte e do Colóquio com a Samaritana?

Enfim: resultado de estudos um tanto apressa­dos, para corresponderem às necessidades duma cadeira de Seminário, ressentir-se-á este trabalho das circunstâncias em que nasceu. Se Deus nos conceder algum tempo de vida e pressentirmos interesse em volta, daremos ainda à estampa obra de maior fôlego, para o que reunimos bastos ele­mentos e urna parte vultuosa já preparada, a qual, no caso de partida próxima para melhor estado, legamos a quem queira e possa completá-la, adap­tando-a às condições do meio.

Que Deus nos ajude agora, nesta narrativa, decerto ambiciosa mas bem intencionada… e ajude também aqueles que terão de a julgar.

Lisboa, 27 de Janeiro de 1956, dia em que muitos cristãos fes­tejam a memória de João o “Boca- -de-Ouro”.»

Eduardo MOREIRA
Crisóstomo Português. [s. l.] : Junta Presbiteriana de Cooperação, 1957