COMO DEVEMOS CONFESSAR-NOS

COMO DEVEMOS CONFESSAR-NOS

 

[…] 1. Todo cristão que quiser se confessar deve depositar e ter a maior confiança na promessa sobremodo misericordiosa de Deus, e deve crer firmemente que o todo-poderoso Deus lhe perdoará misericordiosamente o seu pecado. Pois o santo profeta diz no Salmo 24[25].11: “Por causa do teu nome, Senhor, perdoa-me graciosamente o meu pecado.” Cada qual pode lembrar-se ainda da oração do rei Manassés de Judà. É que essa oração serve muito bem para a confissão, razão pela qual todo cristão pode proferi-la antes de confessar-se. Por isso, essa oração será transcrita mais abaixo.[…] 1. Todo cristão que quiser se confessar deve depositar e ter a maior confiança na promessa sobremodo misericordiosa de Deus, e deve crer firmemente que o todo-poderoso Deus lhe perdoará misericordiosamente o seu pecado. Pois o santo profeta diz no Salmo 24[25].11: “Por causa do teu nome, Senhor, perdoa-me graciosamente o meu pecado.” Cada qual pode lembrar-se ainda da oração do rei Manassés de Judá. É que essa oração serve muito bem para a confissão, razão pela qual todo cristão pode proferi-la antes de confessar-se. Por isso, essa oração será transcrita mais abaixo.

2. Antes de confessar seus pecados ao sacerdote, todo cristão deve confessar-se a Deus, o Senhor, com muita diligência, contando e descrevendo à sua divina majestade, clara e abertamente, todos os seus defeitos e pecados, também como se portou, como agiu e qual sua situação moral. O cristão deve fazer isso como se estivesse falando com um amigo diante do qual não tem segredos. Também deve confessar a Deus todos os pensamentos pecaminosos e maus de que se lembrar.

3. Todo cristão que quiser confessar o seu pecado deve ter o propósito e a vontade sinceros de melhorar sua vida a partir desse momento e de desfazer-se dos pecados que são pecados mortais manifestos, tais como adultério, assassinato, furto, difamação, usura, impudicícia, roubo e coisas semelhantes. Sim, a pessoa deve ter esse propósito tão logo tenha praticado um dos pecados mencionados. Pois seria arriscado e perigoso confessar-se sem esse propósito. Quando, porém, a pessoa percebe que não tem um verdadeiro propósito de melhorar sua vida, deve cair de joelhos e pedir a Deus um bom propósito, dizendo: “Ó meu Deus e Senhor, eu não tenho o que devo, nem consigo obtê-lo. Por isso, peço-te que, graciosamente, me dês o que exiges e que me ordenes o que queres.”

4. Devem-se confessar os pecados do coração, que são ocultos e conhecidos unicamente por Deus. Por isto, devem-se confessar os pecados ocultos, que a pessoa decidiu, consigo mesma, cometer diretamente contra os mandamentos de Deus. Pois é impossível ter o propósito de evitar os pecados chamados diários, visto que a atracção entre o sexo masculino e o feminino não cessa. Também o diabo não descansa, de sorte que nossa natureza é totalmente pecaminosa.

5. O ser humano deve considerar que não lhe é possível lembrar e confessar todos os seus pecados mortais, mas deve supor que, mesmo após todo o seu esforço, confessou apenas a menor parte de seus pecados. Pois diz o profeta num salmo: “Ó Senhor, purifica-me de meus pecados ocultos.” [SI 51.2.] E, em outro salmo: “Quem compreende o pecado?” [SI 19.12.] Por isso, a pessoa deve confessar os pecados mortais que são pecados mortais manifestos e que oprimem sua consciência quando da confissão, deixando os outros de lado. Pois é tão impossível que o ser humano consiga confessar todos os seus pecados mortais, que também nossas boas obras são mortais e condenáveis, se Deus as julga e avalia com seu rigor, e não com sua bondosa misericórdia. No entanto, caso se devam confessar todos os pecados mortais, que seja feito com as seguintes breves palavras: “Sim, toda a minha vida e tudo o que faço, digo e penso é feito de tal forma, que é mortal e condenável.” Pois se uma pessoa pensasse estar sem pecado mortal, isto seria o mais mortal dos pecados mortais.

6. A pessoa que quiser se confessar deve deixar de lado as extensas e múltiplas distinções dos pecados e de suas circunstâncias, e ocupar-se unicamente com os mandamentos de Deus. Deve confrontar-se com eles e passá-los em revista, ordenar sua confissão de acordo com eles e apresentá-la de forma breve. Pois, examinando atentamente os mandamentos de Deus, constatamos neles como, por pecados vários, Deus foi abandonado, desprezado e encolerizado por nós.

7. Deve-se fazer uma grande distinção entre os pecados acontecidos contra os mandamentos de Deus e contra os mandamentos e leis dos seres humanos. Pois sem os mandamentos de Deus ninguém pode salvar-se, mas é perfeitamente possivel salvar-se sem os mandamentos dos seres humanos.

8. Se quisermos confessar-nos, devemos confrontar-nos logo apenas com os Dez Mandamentos e dizer como pecamos contra eles […].

9. Os dois últimos mandamentos de Deus, a saber, o nono: “Não deves cobiçar a mulher de teu próximo” e o décimo: “Não deves cobiçar os bens de teu próximo”, interpretam os outros mandamentos de Deus, quando ordenam vencer o pecado original, o que, nesta vida, não pode acontecer. Por isso diz São Paulo em Romanos 7.19: “Faço o mal que não quero”, e em Gálatas 5.17: “A carne milita contra o Espírito.” Pois nenhum ser humano está inteiramente livre de desejos impuros e avareza nesta vida passageira.

10. Em suma, salvam-se as pessoas que depositam sua confiança em Deus, não em suas próprias obras nem em quaisquer criaturas. Por isso, o ser humano deve aprender a confiar mais na misericórdia de Deus do que em sua confissão ou diligência, porque não se pode fazer, empreender e protestar demais contra a maldita confiança em nossas obras. Devemos, portanto, acostumar nossa consciência a confiar em Deus. Quando tudo isso acontece com a intenção de crer e confiar em Deus, então isso lhe agrada. E a honra de Deus é que confiemos com o maior vigor na misericórdia de Deus.

Martinho LUTERO
Uma breve instrução sobre como devemos confessar-nos (1519-1520),
in Martinho Lutero, Obras selecionadas. São Leopoldo: Editora Sinodal – Concórdia Editora Ltda., 1995, vol. 1, pp. 234-235, 239.